Coronavírus faz casas de câmbio do Rio venderem dólar turismo mais barato que o comercial - Economia - Estadão

A falta de demanda está fazendo as casas de câmbio ofertaram a moeda americana mais barata do que a cotação do mercado financeiro


FOTO: Divulgação

RIO - A pandemia de coronavírus, que levou ao fechamento de fronteiras e à orientação de isolamento de pessoas mundo afora, tem impedido o repasse integral da alta do dólar comercial para o dólar turismo à venda no varejo. A falta de demanda está fazendo as casas de câmbio ofertaram a moeda americana mais barata do que a cotação do mercado financeiro.

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No Rio de Janeiro, a reportagem do Estadão/Broadcast apurou a cotação para a compra de dólar turismo já com o IOF embutido: entre as 13 casas de câmbio --pesquisadas, apenas uma negociava a moeda americana em patamar superior à cotação de mercado no período entre 11h30 e 12h10 desta quarta-feira, dia 18.

Na JW Turismo, no centro da capital, a moeda era vendida a R$ 4,90, já com os custos do IOF embutidos.

“O dólar comercial neste momento está a R$ 5,09. O nosso dólar turismo está a R$ 4,90. Deveria estar a R$ 5,24, se incluída a IOF, até R$ 5,30. Mas não adianta as casasa de câmbio fazerem isso, porque o mercado parou. Ninguém está comprando, ninguém está viajando. Então a gente tem que baixar”, explicou um operador da JW, que pediu para não ser identificado.

Em Ipanema, na zona sul do Rio, a casa de câmbio Samba Ipanema fazia uma promoção de dólar a R$ 4,75, já com IOF incluso, em notas de US$ 20. Já na Dekole Travel, casa de câmbio em Ipanema, na zona sul do Rio, o dólar era vendido a R$ 5,10, por volta de 11h55. Após destacar que o preço estava abaixo da cotação comercial, referência no mercado financeiro, o atendente informou, por telefone, que as cotações estavam variando muito e que a casa “não está segurando” os valores por muito tempo. A procura está muito baixa, disse o atendente, sem se identificar.

Na TX Exchange Travel, casa de câmbio também de Ipanema, o dólar estava sendo vendido a R$ 4,85 por volta de 12h05, já incluindo o IOF. Segundo a atendente informou por telefone, o valor, abaixo da cotação do dólar comercial nesta quarta-feira, estava nesse nível desde a abertura da casa de câmbio, às 10h30.

Em Copacabana, a DG Câmbio vendia o dólar a R$ 4,86, a Best Exchange Rates anunciava a R$ 5,00, a Exclusive Exchange vendia a R$ 5,00, todas com IOF embutido. Apenas a Le Bon Voyage cobrava além da cotação do dólar comercial naquele momento: R$ 5,30.

No centro da cidade, a Casa Aliança cobrava R$ 4,95 pelo dólar turismo, a Zenith Câmbio vendia a R$ 5,00, a Fortrade Corretora de Câmbio anunciava a R$ 4,85, e a Agência Navegantes Câmbio e Turismo vendia a R$ 5,10.

Na loja da casa de câmbio Quatro Cantos em Niterói, na região metropolitana do Rio, o dólar estava sendo vendido a R$ 4,84 por volta de 11h55, já com o IOF incluído. O atendente informou por telefone, sem se identificar, que a casa de câmbio estava oferecendo a moeda americana a esse preço somente hoje, enquanto durassem os estoques de dólar na loja, já que a procura está muito baixa. “Estamos decidindo se vamos fechar as lojas ou não”, afirmou o atendente.

Analista da corretora de câmbio Fair Corretora, Luís Felipe Palácio lembrou que a venda de dólar por valores abaixo da cotação comercial pelas casas de câmbio costuma ocorrer em momentos de crise que levem a uma alta muito forte do câmbio. A lógica aí é de “queima de estoque”, num quadro em que cai a demanda por dólares no varejo, basicamente para o turismo. Como as casas de câmbio, provavelmente, formaram seus “estoques” com um dólar mais baixo do que o atual, vender abaixo da cotação comercial não significa prejuízo – já que o dólar do “estoque” foi comprado, via de regra, com cotação inferior ao valor atual.

“A casa de câmbio comprou mais barato e agora está queimando, até para não ter perda ou prejuízo”, afirmou Palácio, lembrando que o mesmo ocorreu em outras crises que geraram turbulência no mercado financeiro, como os atentados contra as Torres Gêmeas, em Nova York, em 2001, e a crise global de 2008, na esteira da quebra do banco de investimentos americano Lehman Brothers, em setembro daquele ano.

Para Pedro Rossi, professor do Instituto de Economia da Unicamp, a distorção nas cotações das casas de câmbio é “natural” em momentos de forte alta no dólar comercial, mas ajuda a chamar atenção para os efeitos negativos do fato de o real ser uma moeda tão volátil.

Rossi, que pesquisa sobre o câmbio, lembra que, no Brasil, os negócios envolvendo o “dólar físico” são uma parte muito pequena do mercado. Os dólares vendidos no varejo nas casas de câmbio servem basicamente para o turismo e atividades ilegais. Mesmo assim, o vaivém do mercado financeiro chega ao consumidor final porque a cotação comercial serve de referência – esta, por sua vez, é mais influenciada pelas operações entre bancos, comércio exterior e investidores do mercado futuro.

“O Brasil perde muito pelo fato de ter um mercado extremamente aberto e uma política cambial muito amigável com o mercado”, afirmou Rossi, lembrando que, em situações de crise como atual, o vaivém repentino do dólar atrapalha tanto a economia real quanto a ação contra a pandemia do novo coronavírus, ao encarecer, por exemplo, a importação de materiais e equipamentos de saúde. “O Brasil poderia ter instrumentos mais incisivos de atuação no mercado de câmbio, em especial nos momentos de estresse”, completou Rossi, citando medidas de controle de entrada de capitais e tributação de operações especulativas de curto prazo como opções.



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